Para quem ama no escuro.
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terça-feira, 24 de março de 2015
Imagina
32
Para Alfonso Láuzara
Se para ti descer era a fronteira,
para mim até é o infinito
e olho a chuva e o silêncio frio
com dor de sol solitário em rios
de energia meridiana,
a explodir incógnitas de vida
no único sentido do carbono,
orgânica seta para acima.
Imagina um baixo a volume máximo,
imagina heavy, saxofones de ternura,
imagina Roma a arder sem calor.
Ainda,
imagina que deito pé a escada
e deixo a sombra a dormir
em cama oblíqua.
domingo, 22 de março de 2015
Pode abrir a flor
30
Para Isabel de Ardilheiro, a minha vizinha
Preto e branco.
Mana a torneira saudades.
Diz a pele liberdade
e a palavra tem sentido de Nordés.
Vivo na lembrança assinalada.
Os cavalos da alvorada tendem terras
a povoar o encontro com as águas.
Sinos de brêtema percorrem este alento.
Estremecido o silêncio de tatuar
nas pétalas da ucronia.
Pode abrir a flor.
Ainda é tempo de sonhar a cor e dizer a brisa,
retornar em som,
ser campo ao sol e lar em lar,
cantar sorriso de paz
trocar colheitas com a vizinha Isabel,
deixar aberta a janela para o amor,
e recriar simbiose tenra.
sábado, 21 de março de 2015
Ágape de lua
29
Para Verónica Martínez Delgado
Não queremos mais vermelho que o da vida
ao pé dos leitos e os fogões:
não queremos mais amor que o mesmo amor,
quando enchemos os copos deste tacto
em ágape de lua a mundo e meio.
Meio mundo somos e sabemos
escrever no tempo de sonhar,
páginas de longa e velha paz.
sexta-feira, 20 de março de 2015
Amigas do cervo
28
Para Laura Bugalho
Sentamos ao pé das carvalheiras,
entre fontes ainda.
O nosso som tem o eco das cantigas velhas,
margens de história a navegar
águas quotidianas de conversa
que escrevem alvoradas,
milénios de filha a herdar
os segredos do ventre
e os caminhos.
Amigas do cervo junto ao mar.
quinta-feira, 19 de março de 2015
Costureiras
27
Para Rochi Nóvoa
Costuramos histórias com o barro
nas jornadas de lua,
lume em dor.
Prendida está a tardinha por sonhar
quando tendem as irmãs carícias
sobre a areia do mundo,
este chão de dança e solidão,
esperança telúrica dos ventos
que não sabem calar,
que não querem calar.
Nós.
quarta-feira, 18 de março de 2015
No lábio uma janela e no mar um caminho
26
Para Isabel Ferreiro e Ramiro Torres
Acarinhava as águas com a chuva da luz,
no lábio uma janela e no mar um caminho.
Por tingir as saudades de cada labirinto,
os silêncios ferrados fecharam um inverno
e deixaram a voz a cantar terras livres,
e deixaram os peitos a festejar amor.
Vagavam entre as ondas caminhos de druida,
os verdes latejavam planetas a vibrar.
Como universo novo, expandia-se o sonho
e as serpes deste ciclo voltavam num olhar.
-Renovaremos Nortes em Sul.
A geografia será cruz dalgum tempo.
A viagem a casa voltar, e revoltar.
Renovaremos Sul em Nortes sem fronteira,
a face da revolta, tem nome a navegar.
terça-feira, 17 de março de 2015
Anjos de arame
25
Para Tati Mancebo e Alfredo Ferreiro
Quando o ferro canta e governa o lume,
o tempo a desviver transforma o sonho.
Um monstro amputa ninhos
em noites sem ternura.
O ginete cavalga, em ermos, chaminés.
Foi desterrada a morte do areal que foi rio
e o anjo de arame
tece um deus industrial.
Junto à boca do inferno,
diz o ferro a ritmo de relogio,
a cinza sem canção.
Que longa quiromancia de consciências perdidas!
Por nascer, uma árvore,
por libertar, as mãos.
Amanhã dirá o vento de paredes caídas,
a chuva será o tempo da paz e o resplendor
e nascerão os céus translúcidos da vida.
segunda-feira, 16 de março de 2015
Deixa-me dizer-te
24
Com Miguel Alonso
Para Xavier Ponte
Deixa-me dizer-te.
Dizer-te, não falar-te.
Dizer-te por bandeira nas gaitas do alvorar.
Se despontam as luzes, levaremos o mundo.
Os tempos são chegados,
e os sonhos por sonhar têm beira sem porta
e portos a abeirar.
Deixa-me cantar-te.
Cantar-te, não chorar-te.
Cantar-te em voz de monte na terra do sol-pôr.
Pisaremos moedas, semearemos filhos,
renovaremos nomes na barca do amanhã.
Dizer-te-ei na ilha, então, de ilhas errantes,
entre os passos a força e um mundo por nascer.
Labrega, hei soterrar capitais como abono
e cultivar o amor, sem indústria, nem modos.
Deixa-me dizer-te, no teu nome de lar.
domingo, 15 de março de 2015
Transmutam as palavras
23
Para José Goris
Transmutam as palavras
e os olhares escutam ecos novos na rua.
Agora é a ágora, o passo e o caminho,
nas praças um sentido de seta sem distância.
Somos cervos novos na água da manhã.
Somos ria aberta aos mares do amanhã.
sábado, 14 de março de 2015
A caixinha azul
22
Para o pequeno Alejandro
Entre a matéria escura eras halo de luz.
Desatavas silêncios no hélio de um balão
por ascender, ingrávido, à gravidez do mundo.
Foi na hora precisa do tempo inexistente,
quando expandias corpo e inanimavas almas
em náufragos cárceres à deriva dos sonhos.
Sem ventre, semente.
Sem crónica, crónico,
e, sem palavra, voz.
Imprópria essa dor no beijo impreciso.
Menino prendido a num mundo perdido,
a latejar o medo insubmisso e a lágrima
em longa solidão.
Em que parede pintas as histórias de arame?
Em que cinza ficou a cor de um golpe frio?
Que vento traz carícias até a caixinha azul?
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