Para quem ama no escuro.

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domingo, 22 de março de 2015

Pode abrir a flor


30

          Para Isabel de Ardilheiro, a minha vizinha

Preto e branco.
Mana a torneira saudades.
Diz a pele liberdade
e a palavra tem sentido de Nordés.

Vivo na lembrança assinalada.

Os cavalos da alvorada tendem terras
a povoar o encontro com as águas.
Sinos de brêtema  percorrem este alento.
Estremecido o  silêncio de tatuar
nas pétalas da ucronia.

Pode abrir a flor.
Ainda é tempo de sonhar a cor e dizer a brisa,
retornar em som,
ser campo ao sol e lar em lar,
cantar sorriso de paz
trocar colheitas com a vizinha Isabel,
deixar aberta a janela para o amor,
e recriar simbiose tenra.

sábado, 21 de março de 2015

Ágape de lua


29

          Para Verónica Martínez Delgado


Não queremos mais vermelho que o da vida
ao pé dos leitos e os fogões:
não queremos mais amor que o mesmo amor,
quando enchemos os copos deste tacto
em ágape de lua a mundo e meio.

Meio mundo somos e sabemos
escrever no tempo de sonhar,
páginas de longa e velha paz.

sexta-feira, 20 de março de 2015

Amigas do cervo


28

          Para Laura Bugalho

Sentamos ao pé das carvalheiras,
entre fontes ainda.

O nosso som tem o eco das cantigas velhas,
margens de história a navegar
águas quotidianas  de conversa
que escrevem alvoradas,
milénios de filha a herdar
os segredos do ventre
e os caminhos.

Amigas do cervo junto ao mar.

quinta-feira, 19 de março de 2015

Costureiras


27

          Para Rochi Nóvoa

Costuramos histórias com o barro
nas jornadas de lua,
lume em dor.

Prendida está a tardinha por sonhar
 quando  tendem as irmãs carícias
 sobre a areia do mundo,
este chão de dança  e solidão,
esperança  telúrica  dos ventos
que não sabem calar,
que não querem calar.
Nós.

quarta-feira, 18 de março de 2015

No lábio uma janela e no mar um caminho


26

          Para  Isabel Ferreiro e Ramiro Torres

Acarinhava as águas com a chuva da luz,
no lábio uma janela e no mar um caminho.

Por tingir as saudades de cada labirinto,
os silêncios ferrados fecharam um inverno
e deixaram a voz a cantar terras livres,
e deixaram os peitos a festejar amor.
Vagavam entre as ondas caminhos de druida,
os verdes latejavam planetas a vibrar.
Como universo novo, expandia-se o sonho
e as serpes deste ciclo voltavam num olhar.

-Renovaremos Nortes em Sul.
A geografia será cruz dalgum tempo.
A viagem a casa voltar, e revoltar.

Renovaremos Sul em Nortes sem fronteira,
a face da revolta, tem nome a navegar.

terça-feira, 17 de março de 2015

Anjos de arame



25

          Para Tati Mancebo e Alfredo Ferreiro

Quando o ferro canta e governa o lume,
o tempo a desviver transforma o sonho.

Um monstro amputa ninhos
em noites sem ternura.
O ginete cavalga, em ermos, chaminés.
Foi desterrada a morte do areal que foi rio
e  o anjo de arame
tece um deus industrial.

Junto à boca do inferno,
diz o ferro a ritmo de relogio,
a cinza sem canção.

Que longa quiromancia de consciências perdidas!
Por nascer, uma árvore,
 por libertar, as mãos.

Amanhã dirá o vento de paredes caídas,
a chuva será o tempo da paz e o resplendor
e nascerão os céus translúcidos da vida.

segunda-feira, 16 de março de 2015

Deixa-me dizer-te


24

            Com Miguel Alonso

            Para Xavier Ponte

Deixa-me dizer-te.
Dizer-te, não falar-te.
Dizer-te por bandeira nas gaitas do alvorar.

Se despontam as luzes, levaremos o mundo.
Os tempos são chegados,
e os sonhos por sonhar têm beira sem porta
e portos a abeirar.

Deixa-me cantar-te.
Cantar-te, não chorar-te.
Cantar-te em voz de monte na terra do sol-pôr.

Pisaremos moedas, semearemos filhos,
renovaremos nomes na barca do amanhã.
Dizer-te-ei na ilha, então, de ilhas errantes,
entre os passos a força e um mundo por nascer.
Labrega, hei soterrar capitais como abono
e cultivar o amor, sem indústria, nem modos.

Deixa-me dizer-te, no teu nome de lar.

domingo, 15 de março de 2015

Transmutam as palavras


23

          Para José Goris

Transmutam as palavras
e os olhares escutam ecos novos na rua.
Agora é a ágora, o passo e o caminho,
nas praças um sentido de seta sem distância.
Somos cervos novos na água da manhã.
Somos ria aberta aos mares do amanhã.


sábado, 14 de março de 2015

A caixinha azul



22

          Para  o pequeno Alejandro

Entre a matéria escura eras halo de luz.
Desatavas silêncios  no hélio de um balão
por ascender, ingrávido,  à gravidez do mundo.
Foi na hora precisa do tempo inexistente,
quando  expandias corpo e inanimavas almas
em náufragos cárceres à deriva dos sonhos.

Sem ventre, semente.
Sem crónica, crónico,
e, sem palavra, voz.
Imprópria essa dor no beijo impreciso.
Menino prendido a num mundo perdido,
a latejar o medo insubmisso  e a lágrima
em longa solidão.

Em que parede pintas as histórias de arame?
Em que cinza ficou a cor de um golpe frio?
Que vento traz carícias até a caixinha azul?

CANTO III FENDAS