Para quem ama no escuro.

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quarta-feira, 1 de abril de 2015

As rochas de Caleac



40

          Para Óscar Varela

Falam os últimos sonhos da cabana.

À beira da tardinha ainda chama
até a saudade do bardo, por cantar
o cheiro a sal do último povoado
de lares tenros e voz perto do mar.

Dizemos hinos com vozes renascidas.
No castro alenta o verde coração,
e as ilhas tendem leitos de druida.
Volta a alvorada à casa do sentir,
carícias de harpa e povo a latejar.

Beija-me ainda e sempre sob os carvalhos
da terra boa na que temos raiz.
Revoltemos som de labirinto atlântico
neste tempo de tempos,
nas rochas de Caleac.

terça-feira, 31 de março de 2015

Confissão


39


          Para Rubén Fenice

Confesso as mestiçagens que passeiam meu corpo,
e não apenas corpo, também meu espírito,
os adultérios todos que chegaram a ser-me
em cor, em linhas várias, em crenças e tempos.

Confesso-me de mundos e amores distantes,
de ecos, leituras, cantos e presenças;
sou de ausências tantas que doem como carícia
e de peles diversas e de paisagens muitas.

Pequena!, só terra na terra de mil cores
e bocados de ar, com múltiplos odores.

segunda-feira, 30 de março de 2015

Olho por olho


38

          Para Cruz Martínez

Digo-te: olho por olho,
e ainda mais,
digo: olha-me que te olharei,
e que as linhas olfativas furem glândulas,
que os tatos pintem mapas
e o sabor dos silêncios se confunda
na sinfonia brava do interior.

Digo-te: olho por olho
luz por luz e cor por cor,
vento teu que assente vento,
pausa em tempo,
tempo em dom,
alento violeta dos inícios,
miradas desdentadas
digo, amor.

domingo, 29 de março de 2015

Uni-versos



37

          Para Iara


E quando é de ti o mover da aurora, o silêncio
denso a olhar silêncio, e como se olha o silêncio
a nascer hip hop e heavy metal, tambor, ritmo,
batuque, odor a menta e um tu lento a navegar
os cálidos universos da internet e a nascer em
verso sem ser verso e pirata de ti sem ser pirata
e em mim abordar de corso em linha abordo
e corpo nave e beijo em vento. Bandeira, minha
bandeira... rei sem rei, pátria sem pátria, deus do
deus e nome eterno.

sábado, 28 de março de 2015

Des-redar


36

          Para Marisol Casas

Os pés deitam raiz de pedra na saudade,
e, no devir, os ocasos têm pegada de ser,
e a linha do tempo é marcada
pela sombra própria e fazem saber...


Eu costurava as redes em portos de passado,
nem levava roupa nem calçado,
apenas o corpo a esbarrar sobre a cor
e o escuro a brilhar entre o tremor.

Sabia beijar os peixes novos
e tornar grandes os ocos na rede,
liberar onda em pena e pena em sal
e ser a espera de golfinhos,
magia na tardinha,
casa do último pescador
olhar e alento a perguntar por ti,
pelos silêncios,
incompreender as pescas milagrosas
que chegavam vazias de sentir.

Sim, descosia redes, desredava...
e fiquei apanhada por partir.

Mas os pés têm raiz e os peixes voam.
As luzes livres são assim...

sexta-feira, 27 de março de 2015

Tempos



35

          Para Ricardo Costa Arribe


Foram tempos vividos a saber,
na estadia plena da história
que transformava palavras em memórias
e dia em data
e tornava a luz figuras.

Como o farol dos sonhos marcava rotas
na noite e nalgum texto segredo
de histórias sísmicas ocultas
entre o verdor da erva
na terra nova!

... Ah, Ulisses, qual era a ilha?
A saudade é uma pátria certa
dos velhos anarquistas,
a lua em lua nova,
o verso no silêncio,
lume em frio,
e memória de ti
que eras memória
e moras em lugar desconhecido.

quinta-feira, 26 de março de 2015

Voltar


34

          Para Maria Dovigo
  
Anunciavam entre sonhos e palavras espíritos do ar
as mensagens secretas dos tempos ascendentes,
dos que nem dizem acima,
dos que abaixo não dizem na escada e na verdade.

No silêncio, dormiam palavras entre sonhos,
linhas oníricas da terra na água viva da esfera.
Meu amigo no labirinto,
na escada em Bonaval, no monte alto,
no rio dos destinos, em lábio vivo.

Povoamos o medo da Primavera ao Estio,
revoltamos curvas frias do Estio até o Outono,
perdemos os caminhos do Outono a este Inverno,
o tempo do furacão, o tempo do furacão e o desemprego,
e o verbo voltou e era de anjos, e namorou os versos e os reversos
e sabia de ti, fume na alma, com o vento prendido numa asa,
com olhares prendidos no infinito...
no infinito de ti, sem infinitos...

Voltar, voltar apenas, Ariadne,
voltar, reiniciar o labirinto,
o começo em floresta, em húmus novo:
onde havia ainda árvore e houve ninho.

quarta-feira, 25 de março de 2015

Fotões de água


33

          Para Alexandre Brea

Do centro descentrado, e o silêncio falado
e a presença ausente, e o som acalmado, nasce a luz.

Explodir em mil ondas,
desde o vento e as sombras,
sobre o céu ser de tempo, ritmo e fractal do inverno,
e brincar com as rimas como brincam meninas,
e acelerar partículas entre a mecânica ondulatória
da tua carícia em mim,
a cores várias, na perceção única da dualidade onda-partícula.

Fotões de água na pura luz,
a incerteza básica da indeterminação quântica
sobre a mística espera,
para entrelaçar as amplitudes proibidas
e condensar dinâmicas a beira-mar
onde nasceram as vidas e os espíritos e virou luz.

Amor espetral dos paradoxos,
incertezas de Heisenberg,
quando os operadores correspondentes
a certos observáveis não comutam
e ficam os teus versos sobre mim,
mais uma vez.

terça-feira, 24 de março de 2015

Imagina


32

          Para Alfonso Láuzara
       

Se para ti descer era a fronteira,
para mim até é o infinito
e olho a chuva e o silêncio frio
com dor de sol solitário em rios
de energia meridiana,
a explodir incógnitas de vida
no único sentido do carbono,
orgânica seta para acima.

Imagina um baixo a volume máximo,
imagina heavy, saxofones de ternura,
imagina Roma a arder sem calor.
Ainda,
imagina que deito pé a escada
e deixo a sombra a dormir
em cama oblíqua.

segunda-feira, 23 de março de 2015

Desabotoo o peito para a noite


31


          Para  Manoli Rodríguez, para Miguel Angel Alonso


Desabotoo o peito para a noite,
abro a caixa dos segredos,
para me contar os contos de outrora;
retomo os caminhos que diziam no ar.

Doem na garganta os males velhos
de infância mal curada,
de espera fanada,
o medo da palavra atravancada.

Furou-se um pneu neste ciclo de som.
Avanço em linha opaca, com instintos
que tremem como a terra
neste tato.

Olho sem ver senda,
nem sonho de luz,
nem astro,
sempre adiante,
verbo em lábio,
na via Puro-eu a Nós-em-cor.

CANTO IV NASCER EM LUZ