Para quem ama no escuro.

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sexta-feira, 13 de março de 2015

A novena onda


21

          Para Cari Ca, que pinta amor.


Mordo na raiz substrato vivo,
 mãe a esfarelar nosso sustento,
ancoro pés na união do tempo,
no início ígneo ao que voltar
é caminho certo.

Cavalgamos nove ondas em corcel de ar.
Navegamos nove ilhas em barca de pedra.
Pairamos nove montanhas em vela de sol.
Caminhamos nove sonhos com os pés da terra.
Soterramos  nove anéis com garras de nuvem.
Cantamos nove odes com a voz da árvore.
Caçamos nove sons com arco de vento.
Acendemos nove teias com lume de mar.
Emprenhamos nove noites com amor de lua.

Nesta laje vou gravar nossas façanhas,
na saudade o nosso dom.

quinta-feira, 12 de março de 2015

A onda oitava


20

          Para Xosé Iglesias


Na linha do sol, números áureos recobram criação
e o tempo deixa espíritos de moura a pé do mar.
Sereias acalmadas pela brisa penteiam aura
e passeiam no espelho salgado um regressar.

Meu amigo: a Mãe aguarda povo.
Reconta longos contos desta história,
encanta no seu canto uma memória
e tece alvoradas de sol-pôr .

Meu amigo: a Mãe aguarda sonhos.
Enraíza em cantiga as lembranças
e baila, formosa, na esperança,
que sempre ressurge na maré.

quarta-feira, 11 de março de 2015

A sétima onda


19

          Para Samuel Pimenta


Ao som da avelaneira lateja a minha pele,
regressão vegetal ocupa ritmo e sombra.
Na dança da memória, sou luz a enraizar.

E a terra fecha sulcos
e a chuva abre fronteiras.

No útero salgado da onda passageira,
no retorno da vida,
há vozes minerais que dizem vento,
universos de flor a enfeitiçar.

terça-feira, 10 de março de 2015

Cliodne dos loiros cabelos


18

          Para Pedro Casteleiro


Fica o corpo no curragh.
Voltou Cliodne à terra do descanso eterno,
ali os espíritos permanecem,
ali é imutável o amor.

Para os mais bravos corcéis
há senda entre as ondas.
Retorna o orvalho da lua sobre Eirin.

Muda o rosto da vaga 
em fundação de praias,
duna loira
olha o Sul.

segunda-feira, 9 de março de 2015

A onda sexta


17

          Para Xavier Ponte 

Em alva plena,  meu cervo,
desce-me à ria nascida.
Achega-me, meu remeiro, à costa nova
e, na ilha, namora-me com um sonho,
para que a tua carícia seja proa,
achegue mar.
Beijo em ti líquen de esperas:
acarinho o sorriso desta Terra,
um esteiro de histórias permaneço
e acompanho a confraria do retorno.
Em onda ao vento,
aguardo  mar.
Proclamo no teu corpo alma de esteiro,
praia longa aleitada no silêncio.
Do teu alento digo verso em sal,
e parto, sem partir, na hora alta,
retorno entornada em ave errante,
amiga sou, ribeira que abalavas
por ser mar.

domingo, 8 de março de 2015

Quinta Onda


16

           Para José Manuel Barbosa e Ro Palomera


O vento novo nasce no caminho,
vira nas coxas sentires,
incorpora, incorpóreo, corpo livre,
agita o espaço a inexistir.

Levo horizontes na bandeira,
força  memorial na criação.

Olhar de vento
faz sentir o pensamento
rito casual do círculo,
perímetro indirecto do vazio
no sorriso incolor  da insurreição.


sábado, 7 de março de 2015

A onda quarta


15

        Para Manuel Camba

Já a montanha arqueou pátria sobre o mar.
Aqui deixam as gaitas eco aberto,
intercala um universo sons de fada
e ficam silêncios por criar.
É idade de plenilúnio, de geadas,
noite em lar.

O lume sabe de retornos.
Voltou a cinza a dispersar
lembrança longa
e o achádego procura cultivar
rostos e palavras,
perdido este naufrágio no borralho,
descoberta esta arca no sentir.

           Prometem os presságios revoltas com flor de cerejeira,
no tempo verde do carvalho,
olhar de paz e luz no coração.
O lenho que hoje arde será terra
da semente plena
em sonhos por lavrar.

sexta-feira, 6 de março de 2015

Branwen


14

          Para Marcial Tenreiro. Para Judith.

Branwen, filha de Lir, 
velha irmã do corvo e da lagoa,
as gaivotas da sombra 
partem  hoje em migração de lágrima
e o mar, povoado de emoção,
nomeia o teu silêncio e paira.


Medra um carvalho nas planícies.
Que moura vai fiar verde oceânico?
Ramos de vento abrigam naves
                            nos portos da ilha de Brandão.



quinta-feira, 5 de março de 2015

Terceira onda



13

          Para Isabel Rei


Conceberemos luz.

Na matriz incorpórea dos vazios,
o raio da manhã  retorna espaço.
Emprenha canto o encanto que gerou.

No ar informe latejam as ternuras do orvalho verde,
a consistência do lume inexistente,
a pura energia em criação,
o último círculo,
a cadência  incandescente deste amor.

Astros minúsculos desenham um ser em espiral.
Nascem em luz.

segunda-feira, 2 de março de 2015

Morrigana


10

                 Para André Pena Granha


Percorria a lavandeira velhos caminhos de sonhos:
cantava e branqueava os dias no sol-pôr do rio novo,
enquanto o sangue esvaia linhas de luz sobre a água
e os espíritos diziam no reflexo das palavras
cristais de frio com penas no oco longo das mãos brancas.

De morte lavava prendas a lavandeira entre as canas,
então  as armas batiam  e os silêncios batalhavam.
Os braços tornavam lua um leve entornar de asa
e desciam encarnados em ave líquidos olhos,
revoltados sobre a idade os ninhos azuis do corvo.

Eu queria retomar-nos sobre o tempo em luz de alvas,
lamber uma terra virgem no bico de Morrigana
pentear-me ao pé do poço
espelhar-me então no povo
e sublevar-me em cantigas de lavandeira encantada.


Canto II OS POEMAS DAS NOVE ONDAS