Para quem ama no escuro.

sexta-feira, 6 de março de 2015

Branwen


14

          Para Marcial Tenreiro. Para Judith.

Branwen, filha de Lir, 
velha irmã do corvo e da lagoa,
as gaivotas da sombra 
partem  hoje em migração de lágrima
e o mar, povoado de emoção,
nomeia o teu silêncio e paira.


Medra um carvalho nas planícies.
Que moura vai fiar verde oceânico?
Ramos de vento abrigam naves
                            nos portos da ilha de Brandão.



quinta-feira, 5 de março de 2015

Terceira onda



13

          Para Isabel Rei


Conceberemos luz.

Na matriz incorpórea dos vazios,
o raio da manhã  retorna espaço.
Emprenha canto o encanto que gerou.

No ar informe latejam as ternuras do orvalho verde,
a consistência do lume inexistente,
a pura energia em criação,
o último círculo,
a cadência  incandescente deste amor.

Astros minúsculos desenham um ser em espiral.
Nascem em luz.

quarta-feira, 4 de março de 2015

Onda Segunda


12

          Para Artur Alonso Novelhe. Para Margot

Em tempos espirais volto até o início.
A minha casa nasceu do nevoeiro,
é raiz de brêtema o meu sono,
aperta em eco denso uma visão.
Então, desta saudade brota água,
da luz esperada uma palavra
com bruma por corpo
e cor brião.

Desvendo na nuvem os agouros,
cristal de dias brancos na cascata,
fio de som no manancial.
Percorro o  percurso assinalado
com voz de anta,
espírito de loba.
No alento silvestre das espigas
a dança dos regatos
namorou.

terça-feira, 3 de março de 2015

Primeira onda


11
       
          Para Branca Garcia Fernández-Albalát


Abrolham mananciais das mãos da deusa.
Os segredos do éter pairam no espírito
com voz de silêncios milenários.
E pousa um papo-ruivo  no ramo despojado do pessegueiro novo,
o mistério encarnado neste frio de inverno.
No estatismo de um pulo retorna o universo,
entorna-nos céu.

A percepção vertical revela
o equilíbrio do tecto a inexistir.
Que não caia sobre nós o firmamento,
Que desçam as alturas desta aura
e chova horizontal numa montanha,
por sermos cosmos partilhado
a expandir.

segunda-feira, 2 de março de 2015

Morrigana


10

                 Para André Pena Granha


Percorria a lavandeira velhos caminhos de sonhos:
cantava e branqueava os dias no sol-pôr do rio novo,
enquanto o sangue esvaia linhas de luz sobre a água
e os espíritos diziam no reflexo das palavras
cristais de frio com penas no oco longo das mãos brancas.

De morte lavava prendas a lavandeira entre as canas,
então  as armas batiam  e os silêncios batalhavam.
Os braços tornavam lua um leve entornar de asa
e desciam encarnados em ave líquidos olhos,
revoltados sobre a idade os ninhos azuis do corvo.

Eu queria retomar-nos sobre o tempo em luz de alvas,
lamber uma terra virgem no bico de Morrigana
pentear-me ao pé do poço
espelhar-me então no povo
e sublevar-me em cantigas de lavandeira encantada.


Canto II OS POEMAS DAS NOVE ONDAS




domingo, 1 de março de 2015

Somdamor


9

               Para Maria José Fernández



Invadimos com trópico as matérias da ordem
e com caos reiteramos a harmonia
para voltarmos nuas à carícia do lobo.

Sobre a noite o vão foi ritmo sonoro
verde dança, corpo livre, livre som.

Os tambores da queda e as ruínas
têm luz de aurora nova em Somdamor.