Para quem ama no escuro.

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Devri veledi


48

          Para César Morán


Devri veledi

Cada anjo chega numa onda.
Os mares dos quatro pontos cardinais
e o tempo saúdam ao sem tempo,
o espaço ao sem espaço,
a unidade à companhia.

A água é água,
o lume é lume,
o ar é ar,
a terra é terra.
Para entornar ladainhas nasce a vida.

Saúdo a linha do silêncio,
a frustração da recta,
o abismo do leito,
a fé prendida no som múltiplo.
Saúdo o tempo das saudades,
o labirinto das perdas mais sentidas,
a curva no caminho,
o nome errante,
o destino errado sem destino.
Saúdo a queda das palavras
o sonho azul na fé prendida,
o círculo que volta,

e recomeço a múltipla onda,
a alma múltipla.

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Taksim de Ney


47


          Para Flor e Daniel Caxigueiro


             Taksim de ney

Esta é a noitinha.

Sobre as montanhas o céu é vermelho.

Aguardo a nave que não chega,
o tempo que não passou
quando o silêncio é espera
e a aurora, um pôr de sol.

Aguardo a mão dos sonhos,
a que nunca mais sonhou,
braços cruzados no peito.

Arde a fé
em fé de cor.

terça-feira, 7 de abril de 2015

O som


46

          Para Belém Grandal
                      
                  O Som 


A rocha mede a água,
os gases cobrem
os espaços do pranto
e o sorriso.

A pedra é nave de esperas
e luz do sol-pôr.

Desde o resplendor da tardinha,
as ondas são céu
e, na noite, as estrelas vão brilhar.

Dos longos caminhos,
os tempos serão,
ordem deste caos.

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Na´t-i serîf




45

       
          Para Xoán Abeleira

         Na´t-i serîf

As vozes do vento,
e das aves, e da água.

A harmonia dos céus na ordem que precede ao caos,
no caos que precede à ordem.
O resplendor da areia,
o frescor do carvalho e a oliveira,
do baobab e a cerejeira.

O ritmo do lume dançante,
o odor da praia na noitinha,
a noite fria do deserto,
a montanha alta,
o rio.

Cantarei o verbo, fluir do coração,
no lábio de quem tem lábio,
nos olhos de quem olhou.

Cantarei a fonte do saber,
a alma universal,
a pele do cosmos,
o dom dos que não têm dom.

Cantarei as mãos, as poutas,
a raiz, a sem-raíz,
a esplêndida navegação da alga,
a asa cantarei.

Cantarei o mesmo canto da esfera,
o eco planetário da molécula,
a luz dos que têm luz,
a noite de quem sonhou.

Do ruído a paz chega.
Entre a brêtema abre o dia.
Entre a morte a vida aprende.
Da rocha nasce o manancial.

Tudo canta
a geração universal da existência
na ladainha das estrelas,
as vozes do vento
e das aves e da água.
Ao criador do canto,
tudo canta.

CANTO VI SEMÁ


domingo, 5 de abril de 2015

Voltamos


44

 Para Hugo Da Nóbrega Dias

Voltamos.
Havia um muro de pedra coroado de espinhas.
Havia um templete no jardim.
E o monte sumira na distância de especuladores brancos.

Por isso perguntei à ermida e aos carvalhos tristes,
e aos penedos sós,
por espelhos de ilhas,
e tomei nome de barca nas tardes da infância e a erva livres
mimetizadas em alga, ou insectos salgados de ribeira.
E procurei pente a beira-mar,
rumo a Cortegada,
terra-povo,
viveiro de um berro feito som,
onda que revolta tempo e lua nos solstícios da noite,
uma canção.

sábado, 4 de abril de 2015

Marisqueiras


43

         Para Viki Rivadulla

A praia era rasto de gaivota e pé de mulher. 

Chegavam os banhistas e as ondas.
Chegavam já os canos até o mar
e a semente perdia o seu cheiro primitivo,
odor de lembranças e loureiro,
de pólvora e rocha revestida,
de alga e micélio, ferro e pão.

Perturbados horizontes entre o fumo
e o negócio de luz a planear 
na velocidade, na noite, no ouro
sem espera ou amanhã,
enquanto as ondas vermelhas reflectiam
mais uma morte que as que perde o chão,
e afogavam o rochedo, mesmo a árvore,
entre sombras ainda a mariscar.