Para quem ama no escuro.

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domingo, 5 de abril de 2015

Voltamos


44

 Para Hugo Da Nóbrega Dias

Voltamos.
Havia um muro de pedra coroado de espinhas.
Havia um templete no jardim.
E o monte sumira na distância de especuladores brancos.

Por isso perguntei à ermida e aos carvalhos tristes,
e aos penedos sós,
por espelhos de ilhas,
e tomei nome de barca nas tardes da infância e a erva livres
mimetizadas em alga, ou insectos salgados de ribeira.
E procurei pente a beira-mar,
rumo a Cortegada,
terra-povo,
viveiro de um berro feito som,
onda que revolta tempo e lua nos solstícios da noite,
uma canção.

sábado, 4 de abril de 2015

Marisqueiras


43

         Para Viki Rivadulla

A praia era rasto de gaivota e pé de mulher. 

Chegavam os banhistas e as ondas.
Chegavam já os canos até o mar
e a semente perdia o seu cheiro primitivo,
odor de lembranças e loureiro,
de pólvora e rocha revestida,
de alga e micélio, ferro e pão.

Perturbados horizontes entre o fumo
e o negócio de luz a planear 
na velocidade, na noite, no ouro
sem espera ou amanhã,
enquanto as ondas vermelhas reflectiam
mais uma morte que as que perde o chão,
e afogavam o rochedo, mesmo a árvore,
entre sombras ainda a mariscar. 

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Conchas


42

          Para Manolo Pipas


Baixa o Ulha. Sobe o oceano.
A terra abre leiras sob o mar,
os quintais reflectidos das estrelas
que cultivam aquelas minhas mães
de força e saudade.

As saias deixavam-se partir
nas costas encurvadas
a leirinhas de colheita animal,
submergidas na herança de canastros
e nos pés do silêncio,
por colunar conto comunal com concha viva
e retornar areia a navegar.

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Sereias


41

          Para Alba Maria Diaz

Na longa carvalheira das galaicas
legava-se o livro dos sonhos,
à ternura do sol-pôr a pé do mar.

Agora fica a terra, apenas eco.
Fica a ria a destecer este aço líquido,
o farol  breve do porto a retornar,
e fica em mim a voz de cada pedra,
a esperança da ilha a beira-mar
na nave das justiças,
 junto ao rasto vivo
das agricultoras leves da maré
com pele de alga e voz formosa.

As sereias de viveiro no minguante
cantam nas conchas alalás.

CANTO V CORTEGADA